Herbert Vianna refaz canções que fez para vozes femininas

Guilherme Bryan, Rede Brasil Atual

“O cantor e compositor paraibano Herbert Vianna, de 51 anos, é mais conhecido como o vocalista e guitarrista de uma das mais importantes bandas do rock nacional dos anos 80, Os Paralamas do Sucesso. Mas ele teve vários sucessos imortalizados na voz de cantoras como Maria Bethânia, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Fernanda Abreu, Kátia Bronstein, Érika Martins (da banda Penélope), Negril, Ana Carolina, Marina Lima, Paula Toller (do Kid Abelha), entre outras. São justamente essas canções que ele mesmo interpreta em seu quarto álbum solo, “Victoria”, que é o primeiro nome da inglesa Lucy Needham, mulher de Herbert falecida em 2001 no acidente aéreo que o deixou paraplégico.

Não é à toa que todas as gravações possuem em comum o fato de que foram feitas de modo bastante pessoal e intimista, e retratam o amor com diferentes enfoques. Há desde registros a respeito dos solitários, da explosão inicial da grande paixão e do momento final, com a sensação de que, na verdade, se conheceu muito pouco a respeito do ex-parceiro. A produção é de Chico Neves, que também toca minimoog, baixo, violão, teclados, xilofone, sitar e efeitos.

“Não vejo nada / Mesmo quando acendo a luz / Não creio em nada / Mesmo que me provem certo como 2 e 2 / As folhas crescem em nosso jardim / Pra te mostrar / Só pra te mostrar porque / Não há nada que ponha tudo em seu lugar eu sei / E o meu lugar está aí”. Assim cantou Herbert Vianna em 1992, em “Só pra te mostrar”, com Daniela Mercury, e que a interpreta agora sozinho, abrindo o álbum. O tom intimista e de retrato cotidiano segue em “Pense bem”, gravada originalmente por Negril e que agora conta com um gostoso jogo de vozes: “Nada é exatamente como você aprendeu na escola / Se deixar morrer / Nada traz o amor de volta / O orgulho não vai te servir / Eu não posso e impedir”.

O solo cristalino da guitarra abre “Junto ao mar”, que tem uma pegada bem Clube da Esquina e ficou conhecida com a banda Penélope: “Salta aos olhos o azul / Eu nunca vi chorar / Teus olhos desta cor / Frios como o mar / As ondas vêm e vão / Que horas são? / Eu nem vejo mais o sol / E o tempo não parou / Estranho é o amor / Quando já não está”. A doçura é substituída por um tom mais raivoso em “Eu não sei nada de você”, uma das poucas faixas conhecidas com o próprio Herbert: “E eu só quero dizer / Que eu não sei nada de você / Mas eu quero dizer / Não sei muito de mim também / Os dedos que apontam rumos / Senhores, juízes do valor / Não são os meus, eu já não julgo / Não estou na sua pele, sua dor”. Esse clima reaparecerá em “Mulher sem nome”, que parece misturar um rap com sonoridades mais psicodélicas.

A melhor gravação do álbum é “A lua que eu te dei”, em função dos instrumentais delicados, dos jogos de vozes arrasadores e da delicada e tocante interpretação de Herbert Vianna. Ou seja, foi dada uma nova e arrasadora roupagem para o grande sucesso originalmente na voz de Ivete Sangalo: “Posso te falar do sonho / Das flores / De como a cidade mudou / Posso te falar do medo / Do meu desejo / Do meu amor”. Igualmente encantadora é “Noites de sol, dias de lua”, conhecida pelo público mais alternativo com Kátia B: “Existe ódio e encanto / Nesse teu rosto marcado / Sem disfarces, sem nenhum romance / Sem o milagre esperado / Nos dias de sol, os que vivem sós / Sorriem desesperados / Entre vertigens de cor”.

É tocante a gravação de “Pra terminar”, conhecida com Ana Carolina, e que é um dos mais doces e arrebatadores retratos de um romance que parece que nunca terá fim: “Pra começar / Dizer que o amor chegou ao fim / Esqueça de me perguntar / Se ainda há amor em mim / Pra te enganar / Escondo num sorriso a dor / Que sinto ao te ver passar / Na rua com seu novo amor”. Preste atenção na paradinha e deslumbre um dos momentos mais sublimes desse álbum ímpar. Depois disso, nada melhor do que o sambinha – não há aqui qualquer tom pejorativo – “Penso em você”.

Num álbum tão forte, “Un Chanson Triste” passa quase despercebida, sem merecer tal fim, mas abre espaço para outras duas lindas canções: “Quando você não está aqui”, gravada originalmente por Maria Bethânia; e o petardo “Canção pra quando você voltar”, composto em parceria com Leoni e, primeiro, gravado por este como uma espécie de mantra budista: “Quando o sol de cada dia entrar / Chamando assim por mim / Querendo me acordar / Vai ter sempre alguém pra receber / Dizer pra esperar / Eu já devo chegar / Alguém pra olhar a casa / E alguém que regue o meu jardim / Até quando eu chegar”.

“Vem pra mim” foi gravada originalmente pelo RPM, mas aqui aparece com um delicado jogo de vozes ímpar na doçura, abrindo espaço para talvez três das faixas mais conhecidas – “Nada por mim”, parceria com Paula Toller, já gravada por Marina Lima e Kid Abelha; “Se eu não te amasse tanto assim”, composta com Paulo Sérgio Valle e mega badalada com Ivete Sangalo; e “Um amor, um lugar”, inicialmente um dueto de Herbert com Fernanda Abreu, que termina com citação instrumental de “Something”, de George Harrison, que foi considerada por Frank Sinatra a melhor canção de amor já composta.

O álbum termina com quatro canções com pegada blues – a romântica “Só sei amar assim”; o rock havaiano “Blues da garantia”; “Sinto muito”, que retoma a candura; e “Derretendo satélites”, que tem uma sonoridade metálica encantadora: “Falando absurdos / Sonhando muito / Querendo vê-la / Derretendo satélites / Uma vez, dez, quinze, vinte, tanto faz / Não temos mais nada pra fazer / Estou aqui pensando em você / Deixando a água correr / Provei o sal do mar, mostrei um terno / Provei um amor eterno”. Há, portanto, inúmeras razões para considerar “Victoria” uma escolha certa e ficar ouvindo o álbum mais de uma dezena de vezes, sem parar.”

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