Tudo se copia na espionagem? Novos 007 e ‘Missão: Impossível’ têm roteiros cheios de semelhanças

Roteiros e locações são parecidas em 'Nação Fantasma' e '007 contra Spectre'




Da trama central aos personagens principais, passando pelos vilões e pelas locações escolhidas, a conclusão sobre os mais recentes sucessos de Tom Cruise e Daniel Craig é que milhões de pessoas mundo afora viram o mesmo filme duas vezes. Como foi possível? As razões são muitas, mas as coincidências revelam, no mínimo, uma preocupante falta de originalidade entre os roteiristas de agentes secretos.

É importante avisar, a quem não viu os filmes, que este texto contém os famosos “spoilers” – revelações sobre as tramas de Missão Impossível: Nação Secreta e 007 contra Spectre.

Importante, mas perdoável, já que quem começou com os spoilers foi a quinta edição de Missão: Impossível. Em julho, ao chegar aos cinemas, ela acabou revelando muito do que James Bond enfrentaria quatro meses depois.

Em resumo, Nação Secreta tem a mesma história de Spectre: agente herói acredita na existência de uma organização secreta, enquanto todos à sua volta duvidam. O programa para o qual ele trabalha perde apoio dentro do governo e acaba sendo fechado, deixando o mocinho sem emprego e sem apoio. Mesmo assim, ele segue atrás da tal organização secreta, apenas com a ajuda de um colega geek – Q no filme de 007, Benji Dunn em Missão: Impossível –, que lhe oferece suporte técnico.

No final, o herói prova que a organização existia e prende – não mata – seu líder.

Para apimentar a lista de coincidências, os nomes das duas organizações secretas começam com S – Syndicate em Nação Secreta e Spectre na aventura de James Bond.

O britânico Bond também segue um caminho parecido com o feito pelo americano Ethan Hunt, vivido por Tom Cruise. Antes de confrontar e prender o vilão em Londres, ambos foram até o Marrocos, onde, nos dois filmes, havia uma megaestrutura misteriosa que o agente precisava infiltrar. Para vencer a organização secreta – Syndicate ou Spectre, tanto faz –, Bond e Hunt ainda tiveram de escapar de salas de tortura onde estavam amarrados e trocar socos e pontapés com um capanga brutamontes.

Falta de imaginação?

Em fóruns e textos na internet, espectadores discutiram o que estaria por trás das tantas semelhanças entre dois dos maiores lançamentos do cinema no ano. Ninguém acusou, até agora, a produção do 24º filme oficial da franquia de 007 de ter roubado ideias de Missão: Impossível, até porque os dois longa-metragens foram produzidos na mesma época. O que parece ocorrer no setor é uma crise de originalidade agravada pela forma como muitos blockbusters são concebidos.

No caso de Spectre, os problemas se acumularam. Por ser uma franquia tão antiga quanto o cinema moderno, os filmes de James Bond tendem a carecer de condução autoral. Em outras palavras, muita coisa é deixadas nas mãos de muita gente, sem que alguém coloque sua marca e se responsabilize pelo produto final.

Spectre foi dirigido pelo britânico Sam Mendes, que já havia conduzido o absurdo e superestimado 007 – Operação Skyfall, de 2012. A equipe de roteiristas também foi a mesma de Skyfall, com Neal Purvis, Robert Wade e John Logan. O resultado, como no filme de três anos atrás, foi uma história que atira para todos os lados, por vezes sem pé nem cabeça, carente de uma espinha dorsal sólida e coerente.

Os problemas envolvendo a história de Spectre tornaram-se públicos no final de 2014, quando o roteiro foi vazado e chegou à imprensa. Juntamente com o roteiro, o mundo ficou sabendo, por meio de notas marcadas em suas páginas, que os produtores estavam descontentes com o resultado até então. Um quarto roteirista, Jez Burtterworth, foi chamado para ajudar a reorganizar o final da história. Em junho de 2015, pouco antes de Missão: Impossível – Nação Secreta entrar em cartaz, o jornal britânico The Daily Telegraph noticiou que o próprio Daniel Craig tentava reescrever parte do roteiro de Spectre.

Enquanto isso, Nação Secreta chegava aos cinemas e já era considerado um dos melhores momentos da série Missão: Impossível. O filme, afinal, teve exatamente o que faltou à produção de Spectre: liderança. Enquanto o 24º 007 contou com um diretor e quatro roteiristas – além da aparente mãozinha de Craig na história –, Nação Secreta foi comandado basicamente por uma pessoa, o diretor Christopher McQuarrie, que também assina o roteiro. O resultado foi um filme muito mais sólido em sua trama e bem organizado, um sopro de energia à série produzida por Tom Cruise.

Colegas geek - acima, o personagem Benji, de 'Missão: Impossível' - ajudam mocinhos dos filmes
Bond, Hunt, Bourne

Um detalhe, porém, era claro para os mais atentos: Nação Secreta também parecia uma ótima aventura de James Bond. O filme não apenas termina em Londres e revela que alguém dentro do governo britânico ajudava a organização criminosa secreta – como também aconteceria em Spectre –, mas o crescente foco em torno do personagem de Tom Cruise, Ethan Hunt, deu a Missão: Impossível um jeitão de 007.
A franquia nasceu em 1996, inspirada na famosa série de TV dos anos 1960. O primeiro filme, dirigido por Brian De Palma, mantinha vivo o espírito da televisão, segundo o qual a vitória contra o vilão era sempre um trabalho de equipe.

Para isso, De Palma teve, além de Cruise, um elenco de estrelas: Emmanuelle Béart, Jean Reno, Kristin Scott Thomas, Vanessa Redgrave e John Voight. Produzida por Tom Cruise, a série progressivamente concentrou-se na figura de Ethan Hunt, que em Nação Secreta torna-se uma espécie de James Bond. Ou seria uma espécie de Jason Bourne?

O mundo dos filmes de espionagem sofreu um abalo com a chegada e o sucesso da série Bourne, iniciada em 2002, com Matt Damon no papel do agente americano Jason Bourne. A premissa da série sempre foi a de que seu herói é perseguido por aqueles que o treinaram e antes pagavam seu salário. No quarto filme, O Legado Bourne (2012), sem Damon e com Jeremy Renner no papel do agente Aaron Cross, o programa secreto a que Cross pertence é fechado pelo governo americano, e seus agentes, perseguidos.

Quatro Bournes amados pelo público e pela crítica foram suficientes para interferir no DNA das mais veteranas séries 007 e Missão: Impossível. A partir de 2006, com Daniel Craig, Bond foi ficando um pouco mais perturbado, ou seja, um pouco Bourne, que também influenciou Hunt, que já indicava uma vontade de se tornar James Bond. Era uma questão de tempo até que um filme de Missão: Impossível e outro de 007 mostrassem seus heróis perseguidos por suas próprias agências, depois de seu programa ser fechado. Coincidentemente, aconteceu no mesmo ano.

Filme com Craig filme incentiva debate sobre programas de vigilância num ambiente pós-Edward Snowden

Tudo se copia

Não é novidade que no cinema muitos se inspiram no trabalho de alguém – e alguns copiam na cara dura. Em 2004, Craig estrelou Layer Cake, um filme razoável de gângster em que o futuro 007 contracenava com a ainda pouco conhecida Sienna Miller. Talvez sem boas ideias no momento, o diretor Matthew Vaughn resolveu encerrar o filme com uma cena idêntica ao clássico final de O Pagamento Final – horroroso título em português dado a Carlito’s Way, de Brian De Palma.

A série Jogos Vorazes, um estrondoso sucesso dos últimos anos, é praticamente irmã gêmea do japonês Battle Royale, baseado no livro de Koushun Takami, de 1999. A escritora americana Suzanne Collins, que publicou o primeiro volume da série Jogos Vorazes em 2008, nega que conhecesse anteriormente a obra de Takami. Qualquer semelhança foi mera coincidência. Também há aqueles que fazem homenagens claras a outras obras, como os muitos filmes que De Palma fez inspirado abertamente no trabalho de Alfred Hitchcock – Vestida para Matar (1980) e Dublê de Corpo (1984), entre outros.

Spectre, é preciso admitir, não é apenas um Missão: Impossível – Nação Secreta piorado. O filme incentiva o necessário debate em torno da validade de programas de vigilância que invadem a privacidade dos cidadãos, num ambiente pós-Edward Snowden. Além disso, a cena inicial, gravada no México, foi merecidamente elogiada pela crítica – pena ter sido comprometida pelo resto do filme.

As coincidências de locação também podem não ter sido culpa dos produtores, nem de Spectre, nem de Nação Secreta. Trata-se, provavelmente, de uma simples questão de conveniência econômica. Tanto o Reino Unido como o Marrocos oferecem atraentes pacotes de incentivos fiscais para produtores de filmes. No caso do Marrocos, sua paisagem, aliada ao recente esforço do governo em atrair grande produções cinematográficas a país, significa que cada vez mais seu deserto e suas ruas estreitas estarão presentes nas telas de cinema.

Quanto aos filmes de espionagem, eles certamente continuarão a se inspirar mutuamente, às vezes apostando nas mesmas fichas para atrair o público – e com sucesso. Em 2015, tanto Spectre como Missão: Impossível - Nação Secreta arrecadaram em torno de US$ 700 milhões cada em bilheterias ao redor do mundo. Filmes semelhantes, rendas parecidas.

Em 2016, o terceiro herói do setor estará de volta. Um novo Bourne, mais uma vez com Matt Damon e dirigido por Paul Greengrass (dos Bournes números 2 e 3), deverá chegar às telas – provavelmente gerando nova arrecadação de centenas de milhões de dólares. Não se sabe se Jason Bourne repetirá alguma peripécia de James Bond ou Ethan Hunt, mas um conselho ele deveria seguir: ao menos desta vez, tentar evitar o Marrocos."

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